Assim falou; e depois disse-lhes: Lázaro, o nosso amigo, dorme, mas vou despertá-lo do sono... Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá;E todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá. Crês tu isto?...E o defunto saiu, tendo as mãos e os pés ligados com faixas, e o seu rosto envolto num lenço. Disse-lhes Jesus: Desatai-o e deixai-o ir.
Jesus - João 11:11, 25, 26 e 44
Ante as lutas que nos visitam, no processo ascensional, o desembaraço da indumentária física, tanto quanto a imersão do espírito no pesado casulo da carne, constituiu-se em grande desafio a ser enfrentado.
Muito mais do que imaginamos retemos, enquanto laboramos nos pisos das experiências físicas, sutis fixações de ordem inferior, que somente são desveladas ao adquirirmos a relativa liberdade na condição natural do espírito.
Ecos perturbadores repercutem no recôndito da consciência; clichês instaurados nos períodos das experiências terrenas coadjuvam aos vôos tímidos do pássaro recém liberto, momento em que a mente ainda atormentada identifica mui claramente a distinção entre conhecer, abstrair intelectualmente e vivenciar o Cristo Jesus nas linhas puras de seu Evangelho. O Cristo nos convida a ir além da assimilação intelectual, mas a acústica espiritual revestida do escafandro carnal oblitera a convocação dos Altos Planos.
Qual Lázaro, despertamos do letargo “desatados” dos laços carnais, no entanto carregando ainda, do período de entorpecimento dos sentidos espirituais plenos, as repercussões perturbadoras e repetitivas na intimidade do ser imortal.
O conhecimento basilar espírita, notadamente em sua condição de Evangelho Redivivo, tem nos garantido segurança para caminhar nos níveis dos experimentos reencarnatórios, no entanto, ao aferirmos a estatura íntima em face das grandes provações percebemos que são ainda insipientes os conhecimentos retidos nos escaninhos do intelecto, em seu plano aplicativo.
Conhecer é apenas a anti-sala do Saber Profundo, o Saber implica em uma acentuada e elevada dinâmica.
As posições que nos guindaram na Terra aos grandes compromissos, sejam eles familiares, sociais, profissionais ou nos círculos de atuação Espírita, sobre os quais nos dobrávamos com fervor e dedicação, desvelam-se aos nossos olhos, após o decesso do corpo denso, sob novos prismas – sentimo-nos repentinamente desatrelados das rotineiras disposições que nos conferiam desmedido carinho e responsabilidade, nada obstante, permanecem as inclinações incontinentes de tornarmos a elas na continuidade do zelo, mesmo porque a percepção se nos aclara e passamos a enfocar determinadas questões, antes intrincadas, sob um prisma bem mais conciliador – contudo não nos compete mais intervir. Tornar às diretivas de ordem eminentemente materiais seria negligenciar o convite advindo pelas portas da desencarnação a inscrevermo-nos em outras frentes de labor. Porém, as abstrações profundas e constantes, facultam nova luz à consciência desvendando outros painéis de labores.
Não raro, detentores que somos do conhecimento da realidade espiritual, julgamos estar forrados de quaisquer escolhos ao facear a amiga morte, entrementes a perplexidade tem se repetido, muito mais do que possamos supor nos horizontes da esfera terrena, é o que temos constatado.
O Determinismo de Deus é a Evolução, a Transformação, a Perfeição;
O tamanho desvelo à estrutura doméstica de antanho, expresso na segurança, no amparo moral e espiritual aos seus membros, substitui-se por outros corações diligentes, que tomam de nossas mãos o leme, em nossa ausência...
O carinho dos amigos decenários que nos convocavam a palavra despretensiosa, substitui-se em nosso íntimo pelos clamores da ignorância e do desamparo que passamos a destacar em toda parte...
À rotina afanosa imposta no cumprimento dos deveres com Jesus, nos terrenos da experiência reencarnatória, advém o caminhar sereno, sem pressa, a sedimentar-se mais e mais na convicção da coletividade das ações, e somente assim a evolução se opera...
Ao anseio de servir para merecer as amorosas concessões superiores, que nos ajuntem aos corações amados, perdidos no Dédalo das pelejas milenares, advém a imperturbável convicção, ao atravessar o nebuloso portal do desencarne, que o amor incondicional ao próximo e aos que padecem mais do que nós próprios pela ignorância, é o único penhor de felicidade que o espírito cristianizado pode aguardar.
Paz de Jesus conosco, ânimo no cumprimento de nossos deveres!
Honório Onofre de Abreu
Helaine Coutinho Sabbadini
Muriaé, MG, em 21 de abril de 2010
Honório Abreu nasceu em Belo Horizonte, a 12 de junho de 1930. O tempo reacendeu em Honório o ideal sublimante da evangelização profunda. Às claridades da Terceira Revelação, o sincero cultor da Verdade se destacou pela segurança e sabedoria no trato com os princípios espíritas, utilizando-os, como poucos, para extrair do Evangelho, quanto do Velho Testamento, o espírito que vivifica. Dedicou-se também, com infinito carinho, à evangelização infanto-juvenil, viajando por muitos e muitos anos, em tarefa de divulgação e formação de trabalhadores, por todo o País. Seu discernimento doutrinário e sua prudência administrativa, caridosa, assinalaram à União Espírita Mineira / UEM um período de bênçãos e harmonia, permitindo ao Movimento Organizado um surto de realizações fecundas e abençoadas, de valorização do Espiritismo sério, com Allan Kardec e Jesus Cristo. Preparou com denodo e puro idealismo, junto às comissões de trabalho já definidas, o IV Congresso Espírita Mineiro, em comemoração ao Centenário da União Espírita Mineira. Desencarnou a 13 de novembro de 2007.
